Tuesday, September 23, 2008

Onde fica a sua pinta?


Yesss! Essa edição sobre pintosas não ficaria completa sem a minha participação, afinal ninguém dá mais pinta do que EU!! CARALHO!!!

Mas vamos ao que interessa. A culpa é sempre das pintosas. Não interessa o que elas façam, a culpa é sempre delas e pronto. A bixa pintosa é mais odiada do que a traveca ou a drag-queen porque ela freqüenta qualquer lugar, não só o gueto gay. A bixa vai ao shopping ou no supermercado com a mãe, o cunhado, o pai... E quem está por lá? A pintosa!

Mas a bixa que vem te contar que passou um carão por causa de uma pintosa nunca se considera afeminada. A pintosa é sempre "o outro". Entonces a frase que se ouve é: Eu nunca dou pinta! Eu sou normal. Eu não sou caricata!! Humm hum... Engana que eu acredito, viada. Quantas vezes já não vi a bilú convidando a amiga pintosa pra ir pra casa com ela e sempre surge a mesma frase ...mas olha a pinta, hein? Eu moro com meus pais, tá?! E as bilús executivas? Elas todas de terno, cor do cinto combinando com a cor do sapato, etc... Elas se encontram com a amiga pintosa na porta do restaurante pra não queimar o filme no escritório. Qual restaurante? Aquele em que o povo do trabalho não vai. E quando a bilú, toda de terno, volta pro trabalho atrasada para aquela reunião com um cliente importantíssimo e atravessa a rua com sinal amarelo. Que gazela liiiiinda é aquela dando saltos pra não ser atropelada pelos moto-boys. Mas ela não é uma bixa pintosa. A pintosa é sempre a outra bilú. Quiridjinha. .. me economize, por favor! Se você é uma bilú, você dá pinta e pronto.

Aí, titia Lindinalva te pergunta: Onde fica a sua pinta? Você não sabe, cachorra? Entonces vou te explicar melhor e aí você se enquadra dentro da diversidade do universo biluzístico. Se a sua pinta fica na cara, você é uma pintosa assumida e não tá nem aí com o resto do mundo. Você faz questão de mostrar o seu lado feminino, de ser apontada como a bixinha da rua, da vizinhança, do trabalho, da academia e mais do que tudo, da buatchi.

Se você ainda não achou a sua pinta, não se preocupe que a pinta esta lá com certeza. Se está muito escuro pra você achar a sua pinta, é sinal de que você ainda está dentro do armário e não se dá conta do quanto a senhora é feminina. Tá jurando que tá abafando com os bofes do bairro, mas a moçada não tá nem aí com a sua viadagem.

Ainda não achou a sua pinta, viada? A pinta tá escondida entre muitos pêlos no seu corpinho de bear quiridinha? Adoooro as pintosas ursolinas. Acho que elas se esforçam horrores pra seguirem as regras dos ursos. Usam barba, são gordutchas, só bebem cerveja na garrafa, usam camisa xadrez... Tudo como manda o figurino. Põe uma barata ou uma mariposa no mesmo recinto que a bixa bear. Bobagem!!! É uma feminilidade que aflora em gritos e pulos que todo aquele aparato de macho não consegue segurar. Quem que tem que ir lá matar a barata? A pintosa suuuper-feminina, é lógico, que o bear tem fobia de barata. Mulher é que tem medo de barata. O bear é macho, mas tá trabalhando esse problema com o terapeuta.

Resolveu se depilar toda pra achar a sua pinta viada? Não precisa nem dizer que você é uma Barbie. E ainda justifica - sem ninguém perguntar - no vestiário da academia, que é uma questão de higiene. Os pêlos acumulam fungos e bactérias, além de definir melhor os músculos. Hellooooooo! Acorda bixa que você tá dando aquela pinta e nem se manca. Você jura que é uma razão plausível e que o universo inteiro tá é acreditando no seu conto do vigário.

A sua pinta é muderna bixa? Você acreditou na história de metrosexualidade, que nada mais é do que uma justificativa até pra hétero dar pinta? Você tem mais produtos de beleza que a sua irmã e acha que não tá dando pinta? Você ainda acha que o homem do século XXI deve cuidar da pele e do cabelo?

Tem bilú que fala pra me comer tem que ser bem mais macho do que eu, que não dou meu rabinho pra pintosa. Aí a bilú acorda com aquela coceira no rabo que só um bom cacetão de bofe pode resolver. Ela cria coragem e sai à caça do distinto cafucú. Acha aquele suuuuper bofe e pensa com seu rabinho largo: É HOJE!!. Ela passa uma cantada, leva o dito cujo pra casa, ataca o bofe leeenda e na hora dos finalmentes o bofe fala: "Me faz mulher nos seus braços...". E assim acaba mais o sonho da bilú de ser enrabada de quatro na sua cama da Marabraz. Sorry... Mas a pinta do bofe tava escondida, foi só tirar a cueca que a pinta tava lá pra ser vista por poucos.

Ainda não achou a sua pinta viada? Cuidado que ela pode estar embaixo da etiqueta da roupa. Entonces você é a famosa label-queen. Tá lá batendo seu saltinho na Oscar Freire, Daslu e no Iguatemi. Só fala nos desfiles, no site da Erika Palomona e todo esse bla bla bla fashion? Tome cuidado com as tendências acumulativas das pintosas fashion. Elas usam o óclon enorme com o boné da von dutch, a corrente no pescoço, o cordãozinho da Aussibum e mais um crucifixo e o tênis em cores berrantes, que não combina com mais nada. Ela saiu do controle e parece mais um mostruário de camelô ou vitrine da 25 de março. Calma bixa!!! Relaxa e usa um acessório por vez. Não faz a árvore de natal, por favor!!! Less is more!!

Não existe bixa que não dê pinta. Mas a pinta da sua amigucha é sempre maior do que a sua e a pinta das suas inimigutchas é uma mancha enoooooorme. O problema é que ninguém repara na sua própria pinta. Todas inventam justificativas racionais para negarem o seu lado feminino e que esse lado rosa aflora em público. A maior neura da bixinha é que o marido-daquela- semana dê mais pinta do que ela. Aí ela sai com o bofe e ele encontra outra bilú amiga e dá aquela pinta fan-tás-ti-ca no meio da praça de alimentação do shopping. A bixinha já pega o celular e liga pra melhor amiga e fala: "Sabe fulano que eu estou saindo? Eu acho que peguei um gato". O gato é o miado que toda bixa dá antes de escancarar a sua pinta em público. E aí pronto... O casamento da bixinha se foi por água abaixo, que o dito marido-bofe virou mais uma pintosa na vizinhança.

É por isso que admiro a nova geração de bilús. É! As bixinhas novas de 17, 18 anos. É a geração criada assistindo Teletubbies, Meu Querido Pônei e Ursinhos Carinhosos. Quer algo mais pintoso do que os Teletubbies? Foi esse e não o super-homen, he-man ou tundercats o padrão de masculinidade dessas novas beldades na nossa flora biluzística. E eu adoooro a pinta delas. A gente vê um casal de bixinhas pintosas e não sabe quem é mais mulher, quem come quem, ou se as duas ficam de bruços na cama fazendo as unhas uma da outra. E elas não tão nem aí com o resto do mundo, com os códigos e as tribos do universo LGBT. As bixinhas da nova geração nem ligam pra isso. Elas se divertem sem se julgarem ou se preocuparem com o julgamento alheio. Elas simplesmente são felizes.

Você ainda se preocupa com o a sua pinta? Pinta todo mundo tem. Umas são mais visíveis, outras mais escondidas. Mas todo mundo tem pinta, e mais que uma, com certeza. O que euzinha quero é que você acabe com essa neura de apontar a pinta das suas culegas, porque pode ter certeza de que quando você está dando a sua pinta, tem outra bixa te chamando de pintosa também.
Lindinalva Zborowska é uma empregada doméstica e faxineira de boate que adora house-music e, desde 2003, dá muuuita pinta com suas culegas de faxina no blog http://lindinalvabb.blogspot.com. * Texto originalmente publicado na edição #12 da revista A Capa

"não me considero otimista, acho os otimistas ingênuos. Nem pessimista, acho eles amargos. Eu me considero um realista-esperanç oso. Tenho esperança." Ariano Suassuna

Friday, September 12, 2008

HOMOSSEXUALIDADE

Também a homossexualidade apresenta-se construída, e como tal é assimilada como comportamento alternativo, num mercado que se alimenta da própria identidade, vendida sob a forma de produtos culturais. Desde que a academia descobriu o filão das minorias e passou à exploração sistemática, multiplicam-se os estudos sobre os diferentes, as teses sobre os desvios, os congressos sobre as perversões. O reflexo desta nova atitude intelectual reflete-se no cinema de massa: a proliferação de monstrinhos queridos sob a forma, de extraterrestres, robôs, computadores, humanóides, lobisomens, vampiros, etc. A sociedade, que reprimia sua realidade e mantinha o horror em sua sublimação, consome cada vez mais a homossexualidade como valor cultural, diversificando seus estereótipos no mercado da imagem. Assim, o mito de Rimbaud ("o poeta se faz vidente por um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos") prójeta-se hoje sobre todos os rebeldes sem causa cujo ícone, estampado em milhões de camisetas, é James Dean.

Muitos estereótipos dos homossexuais partem deles próprios. Quase todos os heróis de Tennessee Williams, por exemplo, são homossexuais mergulhados na lama, no crime, no remorso. Ele glorifica a homossexualidade como prática proibida, reforçando a conotação sinistra, mórbida e doentia que a sociedade lhe atribui. Ele também a sublima na loucura da própria irmã lobotomizada, misturando ambos os pathos numa personagem feminina in-quietante — aleijada, alcoólatra, prostituída — e que, apesar de tudo, reivindica o seu quinhão de glória. Há algo da noção de bode expiatório nos homossexuais de Williams: eles são como reis abje-tos, como deuses impuros... Em suas memórias, escritas com o propósito deliberado de ganhar dinheiro 51ko escritor revelou sua vida promíscua num estilo surpreendentemente vulgar. Narrando como "caçava" marinheiros com urn amigo até serem espancados por dois deles após o coito; divulgando proezas sexuais e não escondendo os traços perver¬sos do seu caráter que o fez abandonar um velho amante ao sentir nele uma irreversível impotência sexual, adere ao estereótipo que criou e torna-se, sem o brilho de seu estilo literário, um personagem de Tennessee Williams.

Na autobiografia de Mohamed Choukri há uma contradição interna insuperável: do início ao fim, ele descreve sua sexualidade mimética, dirigindo-a para o corpo da mulher. No meio do relato surge, porém, um "fato diverso": louco de desejo, agarra e violenta um menino. Isso ocorre sem maiores comentários. A beleza do garoto é a única justi¬ficativa para acariciar-lhe os genitais, beijar-lhe a boca e possuí-lo à força num trigal. Depois do esdrúxulo desejo, Mohamed volta à normalidade, até que, passando fome, prostitui-se para um velho. Então, sentindo nojo, reflete: "Não faltam mulheres nesta terra. Por que esses homens preferern os garotos?" Aí, Mohamed eliminou de sua mente o caso com "o filho bonito da vizinha". Este lhe resistiu tanto quanto ele resistiu ao pederasta. E a ambos Mohamed censura, como um inocente. Mas, como dizia Hegel, "ninguém é inocente, a não ser a pedra".

Roland Barthes observou que, em países como o Marrocos, é normal que um homem faça amor com outro, desde que não se diga nada a respeito. Dizer a relação homossexual é colocar-se à margem de uma cultura que se quer "viril". Em suas pesquisas sobre a Roma imperial, Paul Veyne mostrou que, aí, a sodomia e a relação eram atributos normais dos escravos: os senhores, conquanto se entregassem à homossexualidade com eles, permaneciam livres e viris, porque ativos no coito anal e passivos no coito oral. Nesta sociedade falocrática, tal como é descrita por Peírônio, a impotência significava a morte social.

Tais exemplos provam que os tabus referentes à sexualidade cercam mais sua expressão que sua prática. E, assim, como todo édipo, o édipo marroquino também deseja matar o pai e casar com a mãe. Só que, aí, o pai é um autêntico monstro, que chega a assassinar um dos filhos, torcendo-lhe o pescoço. A mãe, batida pelo marido, permanece dominada pela carne: "Eles dormiam nus e entrelaçados. Era isto, então, que os unia: o desejo e o desfrute dos corpos". A percepção do escândalo não torna Mohamed um introspectivo, alguém que passará a refletir sobre "isso" a ponto de tornar-se um criador ou um revolucionário. Pelo contrário: "Eu também, quando for grande, terei uma mulher. De dia, baterei nela. De noite, vou cobri-la de beijos e carícias. É um jogo, um passatempo divertido, este, entre o homem e a mulher". Ele vai reproduzir tudo, porque só consegue atenuar o ódio ao pai assemelhando-se a ele.

A relação de Mohamed com as mulheres é uma relação de violência psíquica: de consumo. Para ele, os homens e as mulheres são o que são; não imagina outra sociedade. Quando seu desejo desperta, ele o sacia em galinhas, cabras, cadelas e bezerras. Para se masturbar, constrói uma árvore-mulher com buracos no lugar dos seios, onde introduz frutas, que vai mastigando e comendo enquanto se esfrega no tronco. Do sexo da mulher ele tem medo: pensa que é uma boca espumante e cheia de dentes. Na verdade, o que teme é a consciência do outro. Enquanto faz sexo com plantas e animais, pode satisfazer-se à vontade, sem compromisso moral. Quando o amor se realiza entre seres conscientes, as repercussões são infinitas. Este perigo ele exorciza projetando-o para a vagina e para seu próprio sexo, que se lhe afigura como uma "faca", espirrando um "veneno" esbranquiçado. Ao perceber que a mulher que o inicia não se distingue muito de um objeto, dando-se como um "talho" por algum dinheiro, perde o medo e a vergonha. A partir de então, pode substituir com êxito as galinhas por prostitutas. Frequenta bordéis, passa a ter amantes. Mas, a amizade só a terá com outros homens, porque só a estes admite como iguais.

Mohamed Choukri faz uma apropriação carnal do mundo; falta-lhe, no entanto, aquilo que permanece e transforma tudo em valor. Tah^r Ben Jelloun escreveu que Mohamed Choukri "não é um intelectual pequeno-burguês". Sim, mas a miséria tampouco é gloriosa. Para que o ex-marginal transcendesse seu mundo, era preciso que sofresse e gozasse muito mais, ou de outro modo. Compará-lo a Jean Genet é um despropósito: este ladrão encontrou na literatura sua liberdade; o ladrão Choukri encontrou na literatura sua catarse.

É, de fato, na obra de Genet que a homossexualidade encontra sua mais plena expressão; fantasias, escatologias, técnicas de sedução e acoplamento nunca antes foram escritas com tanta poesia e vontade. Rebaixado, excluído e marcado pela sociedade, Genet vingou-se dos que definirain seu amor como um mal aceitando-o até provocar nos outros, pela literatura, o desejo de experimentá-lo. Em seu universo barroco, o desejo de abismar-se no pecado significa querer encontrar, no auge da perdição, o máximo do prazer. É o equivalente moral do sadomasoquismo físico encontrado em Appolinaire: o sofrimento infligido ao corpo tem o efeito de intensificar o prazer, e como este nio é limitado por nenhuma moral, os corpos passam a existir para serem destruídos no ato sexual — feridas, mutilações, macerações, decepações, assassinatos e massacres são continuações do sexo por outros meios. Frequentemente, Genet rende-se aos símbolos militares, por saber quanto de homossexualismo- contém, em segredo, o militarismo.
Mas, ao invés de condenar a trapaça de que é vítima, ele a usufrui ao máximo, abstraindo dos soldados, carrascos e torturadores a sua ideologia, para apresentá-los e gozá-los como corpos belos e musculosos, preparados para o amor viril. Sob qualquer pretexto, Genet dedica-se a pintar retratos de homens em situações que os conduzem à beira do orgasmo: escritos na prisão, seus melhores textos têm uma função masturbatória.

E é justamente nesta alienação narcisista que o escritor revela existir, subterrânea à realidade política transitória, uma realidade sexual explosiva. Por isso, sua obra, que faz a apologia do crime, da traição e do mal, é paradoxalmente mais livre que a dos surrealistas que a condenaram.

Se a homossexualidade de Genet parece inassimilável, para que o comércio da identidade homossexual prosperasse constituiu-se uma verdadeira estética que não se limita ao consumo do gueto, mas estende-se por toda a sociedade.

O comportamento, o vestuário, a linguagem — tudo —, num ser gregário, manifestam a ideologia do grupo, os valores consagrados pelo modelo eleito. Naturalmente, a adoção de uma estética de grupo por um indivíduo "alheio" é um, fenómeno de mimetismo inconsciente. A "consciência de grupo" surge quando um indivíduo quer ser identificado imediatamente ao grupo, para facilitar os contatos gregários ou desafiar a comunidade dos "outros". Tratando-se da estética homossexual, convém notar que, se há heterossexuais que a adotam por provocação ou inconsciência, há homossexuais que a recusam, por ser a marca um modo gregário de viver a diferença, amortecendo o impacto social da perversão, reformulando-a para uma estereotipia dentro da qual os homossexuais massificados podem enfrentar a vida mais ou menos ajustados e tolerados, tributários de um sistema que volta a discriminar toda relação que se recusa ao gregarismo.

É elucidativo assistir a uma sessão de Rock Horror Picture Show convertida em ritual de iniciação: turmas acossadas pelo terror da solidão dialogam com sombras, tomam vampiros por amigos, vivem intensamente as emoções bissexuais orgíacas que se repetem com perfeita regularidade a cada projeção, manifestando uma integração mágica no círculo dos que "sabem" — abrir guarda-chuvas, lançar arroz, água, acender velas e dar réplicas na hora certa. São espectadores oriundos de uma parcela radicalizada da burguesia, protofascistas já adestrados, esperando a hora e a vez de poderem praticar um linchamenío de verdade. As vítimas poderão ser as mesmas que, no filme, em outros espetáculos, carnavais e noites de exceção, comandam a loucura coletiva. Nas noites comuns das grandes cidades, elas saem de suas tocas para desfilar fantasias e máscaras esculpidas na própria carne. Não são alegres nem falam da antiga questão social, política ou económica. Elas são o outro-em-si-mesmas, e revelam a miséria invisível que se espalha pelo conglomerado urbano. E assim se mostram: aberrações noturnas, monstros de silicone, esmolando restos de prazer na madrugada. Os travestis são a miséria do desejo.

Nazário, Luiz. Sexo: A alienação do desejo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.